O mundo amanheceu confuso. Assim, com as lembranças embaraçadas.
Acredito ou acreditava até então, que era normal. Aliás, a normalidade no
cotidiano se faz a partir do que permitimos tornar-se rotina. Seja um habito ou
obrigação, se você permitir ele vai adentrar nos seus costumes, e corre o sério
risco de ser esquecido, com o decorrer dos anos.
Veio-me a memória por volta das dez da manhã de um dia de
meio-de-semana, uma música muito aplicada em minha vida dois anos atrás, e
completamente esquecida por mim dois curtos anos depois. Um esquecimento
precoce. Que acredito ter sido causada pela rotina que eu fiz dela.
Incrivelmente, ela volta num momento em que se encaixa muito bem com os meus
dias. E pelo menos, volta com sabor de novidade. Você, de Raul Seixas marcou
muitas tediosas tardes de aula de matemática no ensino médio. E carimbou solo
em tudo o que eu fazia na minha vida sem gostar, sem ter prazer. Uma canção que
tentou me ensinar que o prazer da vida vale mais que a vitória. Vencer na vida,
olhado desse ângulo se torna sujo e desprezível. Sem contar: imoral.
O que eu não compreendo é o seu misterioso desaparecimento.
Existia firme, presente no cotidiano, e se perdeu no labirinto da vida. O
reencontro com sabor de novidade é feliz e triste. É calculado pelo
inconsciente. Feliz, por se tratar de reencontro bom. Não é daqueles
reencontros incômodos e insignificantes como aquele que você teve no mercadinho
da esquina. E triste, por ter se perdido e voltar justo agora, para se encaixar
novamente. Percebam: o encaixe cabe como termo, por que é exatamente como eu
senti. E se eu senti, poupe-me. Cabe como termo!
A negação da infelicidade não é saudável. A busca sim. Não
estou aqui dizendo que o encaixe se trata por momento infeliz, não. Mas se
trata por insatisfação. O meu eu não permite com esse reencontro negar minha
insatisfação. O medo da busca se instalou sem que eu percebesse. Adentrou e
expulsou os questionamentos. Bastou que uma lembrança tocasse na ferida, uma
leve cutucada, e você acorda. Acorda, numa manhã confusa e questiona. Acende
uma luz sobre sua mente, aquelas de desenho animado. Mas ela é rápida e só
pisca uma vez. É quando você questiona, é quando se pergunta.
Percebo com tristeza que minha evolução andou por um caminho
sem volta, sem lembranças e com poucos questionamentos, embora eu ainda
acreditasse que era crítico. É uma manhã confusa, mas sincera. Existe agora a
preocupação da volta, do antes no presente. E existe a preocupação com o
futuro, incerto, inseguro. Basta! Jamais! Raul!
Ainda tem café, 17/10/2016.
Letra - Você, Raul Seixas.
Você alguma vez se perguntou por quê?
Faz sempre aquelas mesmas coisas sem gostar
mas você faz.
Sem saber por quê
Você faz e a vida é curta!
Por quê deixar que o mundo
lhe acorrente os pés
Finge que é normal estar insatisfeito
Será direito, o que você faz com você
Por quê você faz isso por quê?
Detesta o patrão no emprego
sem ver que o patrão sempre esteve em você
e dorme com a esposa
Por quem já não sente amor
Será que é medo
Por que
Você faz isso com você
Por quê você não para um pouco de fingir?
e rasga esse uniforme que você não quer
mas você não quer
Prefere dormir e não vê
Por que você faz isso!
Por quê será que é medo?
Por que você faz isso com você.
Letra - Você, Raul Seixas.
Você alguma vez se perguntou por quê?
Faz sempre aquelas mesmas coisas sem gostar
mas você faz.
Sem saber por quê
Você faz e a vida é curta!
Por quê deixar que o mundo
lhe acorrente os pés
Finge que é normal estar insatisfeito
Será direito, o que você faz com você
Por quê você faz isso por quê?
Detesta o patrão no emprego
sem ver que o patrão sempre esteve em você
e dorme com a esposa
Por quem já não sente amor
Será que é medo
Por que
Você faz isso com você
Por quê você não para um pouco de fingir?
e rasga esse uniforme que você não quer
mas você não quer
Prefere dormir e não vê
Por que você faz isso!
Por quê será que é medo?
Por que você faz isso com você.