quinta-feira, 14 de julho de 2016

Reflexões de experiências proporcionadas pelo convívio coletivo e as possibilidades advindas dela para a sociedade



O jardim de Epícuro - "Hospede,  aqui serás feliz; o soberano bem, aqui, é o prazer"
      

  "A sentença falada deve ser dedicada ao presente, ao momento; o que se escreve, dedica-se à distancia, ao futuro."                                Goethe


E
m nosso contexto atualmente, muito se fala em lutas, resistências e modos de se aplicar teorias sociais conhecidas em nossa realidade caótica, mas porém, muitos discordam dessas teorias ao proferirem discursos vagos como “na prática a teoria é outra” ou isso é apenas mais uma “utopia”, recaindo muitas vezes a um conservadorismo determinista e generalizador. Mas através da história, percebemos que lutas transformaram os sujeitos históricos em seu tempo, onde as utopias que esses homens buscavam ficam a poucos passos de serem alcançadas por mais que eles continuem e caminhem atrás delas, quebrando paradigmas e preconceitos impostos em seu tempo, modificando o seu meio vivente a partir de suas próprias ações por menores que fossem e elevando assim os ideais de transformações que buscam ver na sociedade. Essas ideias transcenderam seu tempo, chegando a nós sujeitos contemporâneos de inúmeras formas e meios, mas sendo elas sempre presentes por suas demandas sociais assim hoje como no passado.  

Através da UENP - Universidade Estadual do Paraná, especificamente a Moradia Estudantil do Campus de Jacarezinho, essas experiências se tornam singulares. A Moradia Estudantil, que foi conquistada através do suor e lutas estudantis pelas demandas necessárias para que pessoas sem condições socioeconômicas pudessem residir nas imediações da universidade e se dedicarem a viver uma vida plenamente acadêmica, (uma coisa que muitos foram privados por não terem antes as mesmas condições e ainda continuam), um sonho que parecia muito distante para nossos Pais, mas sempre estimulados pelo pensamento de trabalhar para dar aos seus filhos as condições e vida que eles nunca tiveram, mas que hoje esse sonho nos é mais palpável, isso pela constante e incansável luta dos movimentos sociais pela inclusão e permanência dos estudantes nas universidades.

Filme: Tempos Modernos, 1936.
A Moradia Estudantil da UENP, provisória e transitória morada desses jovens sonhadores que a habitam, proporciona também um palco onde diferentes subjetividades de inúmeros contextos se encontram e se entrelaçam nessa morada, trazendo para este meio as mais diversas formas de costumes e culturas que abrangem o estado do Paraná e São Paulo, mas não se limitando a apenas eles hoje em dia graças a novos programas de inclusão social como o Sisu, onde jovens do Brasil todo podem ter a chance de estudarem aqui na UENP. Porém, com a iniciativa ao acesso e inclusão a esses jovens de baixa renda a academia Universitária, ainda peca-se muito em fornecer as condições necessárias para que esses jovens consigam concluir plenamente a academia, oferecendo recursos como auxílios permanências, Restaurantes Universitários, Bolsas e estágios para que esses estudantes possam concluir os estudos e saírem da universidade com uma formação acadêmica mais completa e participativa. Não apenas se submeter à única opção de ter que trabalhar árduas horas a fio em fábricas cheias de grades e câmeras, que apenas buscam explorar ao máximo a capacidade de força física e intelectual do trabalhador, em pró unicamente do lucro da empresa e do Capital do patrão. Por isso a necessidade de se lutar por melhores condições de permanência estudantil nas universidades, (não apenas isso, mas se limitando aqui), pois através de uma melhor formação desses alunos vindos dos setores sociais mais necessitados e diversos, estarão brevemente indo para as salas de aula do Brasil professores que melhor entenderão a sua realidade e de seus alunos, podendo intervir melhor com experiências significativas no aprendizado deles.

Na moradia (Moradia: provisória casa alugada até a construção da Casa dos Estudantes da UENP-jacarezinho no supercampus que será em?) residem os estudantes advindos de diversos contextos que estão e estavam submetidos a condições socioeconômica e psicologicamente mais adversas até a sua entrada na moradia. Além das precárias condições de infraestrutura do prédio privado que lhe foi possível encontrar para acomodá-los, houve uma necessidade de organização interna pelos moradores à medida que adentravam mais pessoas e ela estava se tornando mais complexa com isso. Pelas condições de poucos recursos que lhes eram cabíveis, esses moradores buscaram organizar e dividir as tarefas básicas como alimentação, limpeza, compra de alimentos e tarefas como administração do dinheiro e representatividade da moradia perante órgãos institucionais e universitários. Na moradia não existem relações hierárquicas entre os moradores e as decisões dentro da moradia são tomadas dentro de reuniões entre os moradores, onde pautas são colocadas, discutidas e colocadas em votação pela decisão da maioria dos moradores.

Só a luta muda a vida!
Em meio a essas condições estruturais e com o circular de diferentes mundos em um único local, a própria existência da moradia torna se uma expressão de resistência politica aos padrões impostos pela sociedade e principalmente pelo seu modo como se relacionam e se autogestionam entre si, buscando através de inspirações pela filosofia da práxis encontrar modos de se pô-la em pratica através das demandas de sua realidade local (neste caso, aplicado a Moradia Estudantil). Essa experiência através das vivencias pelo coletivo é de grande importância para a vida desses estudantes, pois através de sua vida prática na casa conseguem experimentar a práxis daquilo que estudam na universidade, demonstrando que organizações são possíveis se bem organizadas. Não apenas servindo de modelo de organizações coletivas como Republicas para estudantes que ali residem, mas também pela sua integração com a comunidade de moradores locais e professores que ali moram, ampliando a extensão e o conhecimento adquirido na academia universitária, onde o conhecimento vai além dos muros da escola e transgridem as barreiras sociais impostas pelas relações hierárquicas, criando-se elos que vão além da instituição com as pessoas que ali estão, conhecendo melhor os seres pelo seu relacionar no tempo e momento que compartilham.

Resumindo para finalizar esse texto que já está extenso, essa Moradia também é um espaço onde se encontram e circulam as ideias, a musica, as artes, a poesia, o ativismo, a rebeldia, o amor, os valores e os confrontos sociais latentes em nosso meio que ainda refletem-se em nós, onde as pessoas envolvidas se transformam pelo seu se relacionar, fazendo esse coletivo se torna algo maior do que se representa. Morar em um local como esse, apesar dos descasos e barreiras enfrentadas por melhorias diversas, possibilita a esses jovens moradores adquirir experiência que irão acompanha-los e orientá-las ao longo de sua vida não importando as direções que venham a tomarem para si posteriormente, pois o que se vivenciou e experimentou ali como coletivo, não será jamais esquecido ou apagado da vida das pessoas que por ali cruzaram pelas portas da Moradia Estudantil da UENP.
 






 

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