Certos dias, gostaríamos de telefonar pra nós mesmos, e passar horas conversando com quem você era mais ou menos a uns dois anos atrás. A visão do futuro deve ser privilegiada. Se é, nós descobriríamos nesse longo dialogo. Mas eu costumo gostar de como a vida se desenha, e como suas decisões e atitudes agora influenciam tanto no amanhã. Fizemos história, quem vai negar? Nós estivemos juntos, de mãos dadas, porém mudamos. Mudamos muito. Tanto você, eu do passado, quanto você, eu do presente. Mas se o eu do presente fosse me telefonar hoje, pra um dia qualquer lá de trás ele diria:
"é muito mais fácil não sentir, é muito mais fácil quando não se sente, é mais simples quando observamos de fora. O entendimento virá com o sentimento, e acompanhado dele, a dor. Suas mãos estarão com algemas, que só vão soltar-se quando alguém trouxer-lhe a chave. Você cresceu para não ter ela. Você sabe os caminhos, sabe onde pisa, planeja os passos. Mas a chave nunca será sua, é seu destino! Está escrito, esse é seu martírio. Você vai sentir na pele, daqui em diante como não é fácil ser o dono da chave, ainda que tenham te entregado várias delas, nenhuma abrirá a as algemas que te prendem. É mais fácil quando você não sabe disso, é mais fácil quando não tem essa consciência, e por falta dela, naturalmente não sente."
O meu passado, mais filosófico que o meu presente, matutaria a mensagem por vários dias, entenderia talvez o meu papel de telefonar e dizer. Mas não entenderia, jamais, que essa chave seria a que me libertou um dia pra vida, e a que me prendeu em martírio como uma cobra arisca, domesticada, que já não se vira na selva conhecida como viver. É a falta de sentido. Num mundo que não é sentido. E claro: o mundo tem seus sérios problemas, e a falta de sentimento não é um deles. É a solução, na verdade. Eu jamais diria para mim mesmo, "não sinta!" ainda que eu saiba que não sentir seria a solução. Estar algemado ou não, ter ou não, querer e não, não faz a menor diferença, você não sente, não sorri, não chora. Seria mais simples. Tenho agora, de responder meu futuro, antes que a ligação se encerre:
"Nós dois já conversamos muito. Eu vou pisar, subir, descer. Vou errar, é meu direito. Já estou errando em pensar em errar, porém, também já sinto pena de mim. Alguns erros nós dois vamos carregar juntos, para a nossa própria cerimônia fúnebre. Eles não terão perdão. A vida vai seguir. Nós vamos amargurar, engolir, cuspir. Eu posso evitar, mas como vou saber? Como não pisar? Os erros estarão ao meu lado, junto deles a dor. No fim, nós vamos sorrir, enganar quem for, cantar a vida. São nesses momentos que ela deve valer a pena -com ou sem algema-. Desligarei, mas antes devo dizer que tenho muito a aprender, e peço só que eu tenha disposição, se é o que me falta, que o céu me dê disposição de aprender a aprender."
E desligou, e o eu do presente ficou acoitado e enganado. Assustado. Não sabe ele que quem respondeu sua pergunta não era o passado, de jeito nenhum: era o futuro.
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