Era
uma bela tarde na moradia, eis que recebemos uma visita de um de nossos
senseis, este uns dias antes havia combinado de nos trazer uma bola de futebol
para nossa alegria.
Talvez
ele tivesse imaginado assim como eu que o futebol se desenrolaria em uma
quadra, e esse era inicialmente o planejado, porém sempre um imprevisto acabava
impedindo nos de ir a quadra, um dia a chuva, um dia a falta de time, e na
maioria o espírito de Preguissatã.
Então uma brilhante ideia surgiu, por que não
jogamos ali na rua mesmo? Igual a gente fazia quando era criança, a nostalgia
vai ser da hora, vamos.
Arranjamos
dois pares de chinelos velhos, com eles fizemos os golzinhos, três passos
largos cada um, medida padrão de todo campinho de rua, então chegou o momento
da divisão dos times, nenhum de nós jamais havia jogado junto, a decisão para a
escolha do time foi novamente pautada nas regras oficias do rachão do terreiro,
dedos iguais é claro, uma, duas, três tentavas e finalmente o time foi
decidido, Damaceno e Luiz X Fagner e Jorge, antes da bola rolar mais algumas
regras foram reafirmadas.
–
Subiu na calçada é fora – já fui logo dizendo – e quem chuta busca.
Todos
concordaram em seguida visto que ambas as esquinas terminavam em ladeiras e a
julgar pelo tempo que ninguém praticava nenhum esporte a previsão seria da bola
sendo perdida.
Rolou
a bola no primeiro clássico, e já que é clássico tinha que ter a famosa regra “O
primeiro time a tomar gol tira a camisa, o jogo vai até três depois troca”, a
correria era geral, talvez pela nostalgia de jogar na rua, ou talvez a ânsia de
falar que era melhor que o amiguinho de moradia.
Em
menos de dez minutos já estavam todos suados e ofegantes, o primeiro a abrir o
placar foi o time Damaceno\Luiz com um gol marcado pelo atacante cabeludo
Damaboy, o time Fagner\Jorge mudou sua postura no campo, tentando manter-se em
uma espécie de retranca, o que resultou em mais um gol sofrido, dessa vez
marcado por este que vos fala, em uma jogada totalmente cagada.
Então
Fagner bateu no peito e disse, joga em mim que eu resolvo, o que se deu foi o
brilhantismo do jogador que em uma sequencia de jogadas marcou os três gols que
levaram seu time a vitória de virada.
Como
na maioria dos jogos de rua se deu uma pausa de cinco minutos de descanso, que
duram mais ou menos uns vinte minutos a meia hora, e então as novas duplas
foram formadas Jorge\Luiz X Damaceno\Fagner.
Diferente
da outra partida os gols saíram um pra cada lado logo no começo do jogo, os
dois por erros bobos, mais uma vez vim a marcar durante esses clássicos, mas
foi à estrela do menino Fagner que brilhou mais forte.
O Segundo
gol do time Damaceno\Fagner surgiu de uma linda tabela entre os dois, que
resultou em mais um gol de Damaboy, porém o terceiro gol foi uma pintura feita
por Fagner, que saiu driblando e deixou os dois adversários pra trás e
finalizou o jogo.
–
Vocês são tudo pato – Disse ele, rindo pelo golaço que havia acabado de marcar –
Vamo descansar ai vai eu e o Luizinho.
Sentaram-se
para o descanso que todo sedentário precisa, antes que o jogo seguinte
começasse já havia uma enorme platéia de duas pessoas, contando com a minha
namorada que fazia uma visita, e um amigo e ex morador o Jovem Mag Douglas
vulgo magnão.
Visto
que minha namorada observava era hora de fazer bonito, e foi com esse
pensamento que iniciamos o terceiro e ultimo jogo do rodízio.
Abrimos
um a zero rapidamente com uma bola roubada, troca de passes rápidos e uma
conclusão mortal.
Pressionávamos
a defesa do adversário não deixando eles trocarem passes livremente, marcávamos
próximos a eles, e logo conseguimos a chance que resultaria em mais um gol do
menino Fagner.
Na
sequencia em uma jogada desesperada o Jovem Damaceno enfiou um bico na bola em
direção ao nosso gol, o chute teve muito mais força do que o necessário, a bola
cruzou a linha e continuou rapidamente indo em direção a esquina, um único pensamento
cruzou a mente de todos, inclusive de nossa enorme platéia, tal pensamento só
pode ser traduzido com a seguinte palavra: FODEU.
Todos
estavam imóveis observando o caminho que a bola rumava, talvez já imaginassem
que era o fim da bola, que foi bom ter jogado mesmo que por pouco tempo, então
uma memória dos tempos de futebol na rua de Ibaiti tomou conta do meu ser,
entendam eu morava em uma ladeira, nossa diversão era jogar bola mesmo assim, subíamos
e descíamos ela o tempo todo.
Tal
pensamento moveu minhas pernas antes mesmo que eu tivesse certeza do que eu
estava fazendo, corri como não havia corrido em nenhum momento no jogo, sai em
disparada e atravessei a quadra em um carreirão, a bola já se encontrava quase
na quadra de baixo, só pude ouvir a frase de alguém do qual não consigo me
lembrar a voz, mas as palavras foram: “CARALHO O LUIZ CORRE HEIN”.
Agora
imagine a cena, uma bola chutada com força descendo uma ladeira, correr em
direção a ladeira não é uma coisa tão simples, já diz o ditado pra baixo todo
santo ajuda, talvez quem tenha inventado isso nunca saiu correndo em uma
ladeira, a sensação de que você vai cair é uma coisa que te acompanha até você
alcançar a bola, porque o que vem depois é o pensamento de como eu vou parar de
correr nessa budega, forcei minhas pernas no chão dando pisões para desacelerar,
o que fez muito barulho e acabou despertando todos os cachorros da vizinhança,
dominei a bola e então voltei.
Dobrando
a esquina fui recebido como um herói, talvez naquele momento tenhamos voltado a
ser crianças, ninguém se lembrava das provas e trabalhos que os aguardavam,
demos sequencia a nossa partida, eu já esgotado pela repentina corrida ainda
marquei o ultimo gol da nossa noite, lacrando o único placar de três a zero da
noite.
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