segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Instante de paz

Tinha passado o meio-dia, a tarde estava ficando muito quente. Eu estava no meu quarto, mais para me esconder do sol, enquanto meus familiares faziam suas coisas, cada um a sua maneira, mas nada muito preso ao cotidiano. Era um dia que Deus não soprou nenhum vento. O sopro dele (sim, isso é um momento de espiritualidade, pare por aqui se preferir) seria diferente, um sopro que quase passaria despercebido se o meu senso de percepção não estivesse aflorado. Não me lembro exatamente que horas eram, mas minha memória remete ao meio da tarde. Decido, sem obrigação, sair do quarto para dar uma espiadinha no que acontece. Em meio a um calor desumano, minha mãe lavava a calçada. Lembro-me de ter imaginado: "nesse calor, com a torneira ligada, lavando a calçada. Bom pra ela!" No intervalo de cerca de dez passos, aconteceu o estranho, que eu considero difícil de descrever e então vou gastar um pouco do meu tempo para assim fazê-lo.
O sol cortava o corredor, isso é, metade dele era sombra, e a outra metade, luz e calor. Enquanto eu caminhava em direção a minha mãe, alcancei metade do calor. Nesse momento eu senti o calor na minha pele, e não me incomodei com ele. Depois, inexplicavelmente eu senti um prazer interno indescrevível. Enquanto eu olhava para minha mãe lavando a calçada, parei para sentir essa delícia na alma. Era como se por alguns segundos eu tivesse alcançado a paz eterna. E talvez eu tenha. Afinal, não é possível que o eterno seja eterno. Nem a eternidade consegue se eternizar, e pra falar bem a verdade, esse papo de eternidade já é demodê. Ultrapassado, coisa de conservador. As coisas estão sempre em constante mudança, mesmo que ainda depois de considerado "eterno". Todo mundo já viu aquela: "que seja eterno enquanto dure." Voltando: a paz me abraçou. É um sentimento de pureza, de confiança e ao mesmo tempo dá pra ser interpretado como uma injeção de auto-estima. Em menos de um minuto (eu perdi, entre esses segundos a noção de tempo) minha mãe terminou de lavar a calçada, recolhia a mangueira e subiu olhando para mim, sorrindo. A sensação aumentava. Meu espírito se traduzia em chamas de harmonia, sem peso de culpa. São os segundos que eu apenas reafirmo com toda humildade que eu sou um privilegiado e todos os dias tenho a oportunidade de amar mais e mais as pessoas e a vida. Uma brisa gostosíssima, embora por instantes o medo tentava me apavorar, mas a paz e a leveza na alma demonstraram graus de superioridade. Lembro também que nesse dia, eu estava com uma louca vontade de escrever. Nada específico, não especialmente para alguém. Escrever para mim, por puro ego ou pura saciação-momentânea. Pensei, passado esse belo instante de felicidade em escrever sobre esses segundos, e passou pela minha mente remete-lo ao amor materno. É como se a presença de minha mãe, na minha frente, me trouxesse a resposta de paz. A luz natural de mãe. A tranquilidade para a solução das coisas. O sorriso da minha mãe impediu que eu escrevesse naquele dia. Gastamos seu tempo com atividades de casa, e boas conversas bem trocadas. Não esquecerei tão cedo aquela sensação, mas espero do fundo do peito que ela não demore a voltar. por onde andas, onde quer que estejas, que a paz te abrace!

Ainda tem café, 05/12/2016


Instante - Carlos Drummond de Andrade

Uma semente engravidava a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava um coice,

mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.

A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.

E que mais, vida eterna, me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.

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