domingo, 1 de outubro de 2017

PAPO FURADO


O que devo fazer?
Tirar fotos quando possível
Para um público aplaudir?

Ou então me recusar....
E ser classificado
Como quem não está nem aí?

Qual pressão devo sentir?
A que sou mal por ir para direita,
Ou pela esquerda? Ou então, por não ter por onde ir?

Qual vai ser o título que vou receber?
Egoísta que só pensa em si mesmo
Ou estrelinha, que só quer aparecer?

"Deixa de ser pessimista "
"Você atrai o que pensa"
"Para de ser reclamão"....
Depois fazem campanha
Como se  realmente tivessem preocupação

Na boa irmão,
Guarda essa tua hipocrisia
Abaixa esse dedo apontado
Ninguém quer ouvir essa ladainha,
Você não se importa de fato!

Vamos seguir taxados
Numerados, marcados
Egoístas, pessimistas
Pessoas de espírito fraco

E esse seu julgamento
Sua preocupação....
Não passa de papo furado...

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A Grande Guerra: Intelectual e Intestinal

        Há quanto tempo meus caros leitores? Primeiramente preciso dizer que já se foi o tempo de Morada dos anjos. Hoje sou mais um fantasma do grande casarão chamado moradia estudantil. Essa história é atual, venho relatar um fato pós-faculdade, o qual não conseguiria deixar sem registro. Para tentar compreender a situação de quem vos fala darei um breve resumo das condições pós-conclusão de curso em algumas palavras – DESEMPREGO, DEPRESSÃO, SAUDADES e CHORADEIRA – comum para os que já conhecem...
       Pois bem, logo com o término do curso apareceu uma oportunidade para exercer minha vida de adulto (odeio ser adulto) nas distantes terras do Mato Grosso. Sim! É mais longe do que a gente imagina... Então, Com todos os problemas nas organizações de locomoção, as emoções de cada etapa do edital que regia o concurso público, em fim, conseguimos reunir uma van de guerreiros dispostos a encarar essa árdua e aventureira jornada. Então, chega-se o dia tão esperado da viagem.
         Antes do horário combinado, Ricardo e eu, guerreiros ansiosos para a guerra, saímos para um divertimento na saudosa praça da faculdade conhecida popularmente como Ágora. Este é o local onde o povo se junta para discutir política e filosofia e tentar parecer intelectual e “desconstruidão”. Em poucos minutos Ricardo reclama de mal estar, mas omite detalhes sobre suas condições, isso faz com que o problema seja tratado sem importância, até o momento que o jovem concurseiro exclama: “- Vamos para casa, preciso ir ao banheiro!” E então eu percebo a necessidade de nos dirigirmos a minha residência antes que um acidente acontecesse em praça pública.
       Já em minha morada, vão se agrupando os soldados desse pequeno exército, e Ricardo, deste a chegada ao trono já batalha contra a sua enfermidade que assusta a todos e a ele mesmo, chegando a cogitar desistir da longa viagem até as terras mato-grossenses.         Neste momento eu me lembro da importância dessa luta, e praticamente arrasto-o para van onde outros integrantes nos esperam. Com um pouco de resistência ele aceita procurarmos uma farmácia para comprarmos remédio a fim de contornarmos a situação. Antes, porém, passamos na casa de Laid Pamela, a bela guerreira com habilidades de se comunicar com Surdos. Com as orientações de Laid Elianinha, que sabia alguns segredos da arte de segurar o intestino, Laid Pamela prepara uma solução de maisena, limão e água. Ricardo ingere a solução e logo devolve tudo com um jato de vomito em direção a nossa intérprete dos que não falam. Laid Pamela só consegue se esquivar por possuir pares de pernas hábeis e com extensão propícias a grandes deslocamentos com velocidade.
       Após esse ocorrido nos dirigimos à farmácia de plantão, onde o jovem moribundo mede sua pressão sanguínea e compra os medicamentos na esperança de vencer a enfermidade e seguirmos viagem - Nesse meio tempo o exercito preocupado com a guerra e saúde do guerreiro pronuncia-se a favor de sua internação, mas como eu liderava a tropa logo falei: “-Meu batalhão não abandona nenhum guerreiro para traz!” – Por fim a pressão sanguínea estava boa e o corajoso guerreiro decide cair na estrada arriscando sua vida para buscar um mundo melhor.
        A viagem foi longa, várias paradas, e em cada uma, fazíamos uma visita aos tronos das localidades. Essas visitas mostraram que a necessidade de sobrevivência humana faz com que o indivíduo reavalie suas definições de banheiro habitável e inabitável (um mais triste que o outro). Para falar um pouco mais sobre mim, preciso contar que minha hipocondria começou a me fazer acreditar que também estava enfermo, cogitando até a possibilidade de uma virose, tomei remédio do jovem Ricardo para prender o intestino e acabei descobrindo que provoquei o problema inverso (fiquei com intestino preso, sofrendo para evacuar a viagem toda). Continuando... Depois de um sono de mais ou menos 2 horas, Ricardo se levanta e diz: “-estou revigorado” demonstrando uma recuperação surpreendente daquilo que parecia ser o seu fim.
       Seguindo viagem e chegando ao Mato grosso do Sul, descobrimos o primeiro mito, existe sim frio nas terras Matogrossenses, e os guerreiros crentes que o mito era verídico passam uma noite de frio dentro da condução. Eu particularmente, com vestes de verão quase tive hipotermia e como comandante me preocupei em deixar a tropa aquecida sofrendo com as baixas temperaturas da madrugada. Assim que pegamos a guerreira “estrangeira” no povoado de Três Lagoas continuamos nossa viagem por várias horas até chegar à capital do Mato grosso do sul onde a tropa fez uma longa parada e alimentou-se.
Saindo, agora em direção ao destino, aparentava que rodaríamos o globo terrestre e não chegaríamos a “tão tão distante”. O que era para ser uma viagem de 15 horas se tornou 20. Chegando lá cada um foi para seu local de preparação para a batalha. Nesse tempo houve confraternização com a população local de alguns guerreiros que saíram conhecer as tabernas da região, enquanto outros preferiram descansar da viagem em seus aposentos.
        A HORA DA BATALHA – Resumindo, foi sangrenta!!!!! Cada equipe se dirigiu ao seu ponto estratégico para o round 1. Ao fim desse primeiro confronto a maioria estava gravemente ferida e já desacreditando da vitória. Depois do descanso é à hora do round 2, os guerreiros voltaram com uma garra surpreendente e finalizaram a batalha com 2 horas de antecedência, mas incertos sobre seu desempenho por causa do primeiro round... A van passou buscar os feridos em seus respectivos locais de combate ou nos seus pontos de concentração. Então seguimos até uma parada para podermos nos higienizar depois de 12 horas de batalha enfrentando fortes temperaturas matogrossenses. Lá, havia onde se limpar apenas nas dependências do banheiro feminino. Eu e meus bravos companheiros nos aventuramos na ilegalidade e nos limpamos ali mesmo, sempre com uma guerreira do batalhão fazendo a guarda do local.

       A volta foi de festa e de descontração entre uns e outros problemas intestinais. Os guerreiros felizes com o fim da guerra, unidos pelos laços da batalha, interagiram e criaram um laço já pretendendo se aventurar ao que eu chamo de Projeto Bahia, que será outra história de uma guerra que ainda está por vim. Dedico essa crônica a todos os guerreiros que saíram vitoriosos e os que, como eu, levaram uma boa surra, mas sempre tomando como experiência para batalhas futuras.

sábado, 9 de setembro de 2017

Jorge.

Os violados da paz e do sangue
que rangem o ventre e os ventos do mangue
confinados a dor do perdão sem culpa.
Urge de seus anseios os sãos e os morais
e surge no seu meio a descontrolada sombra
dissimulando a lida em bens dominicais.
Se és da lua a cratera e do trigo o fruto
não podes seguir em pesar e luto
com o calor da vida á esquentar-lhe o espírito
e o escuro do som da morte fervendo-te as veias.
Mas onde estão suas manchetes e tietes e Marias?
Perderam-se entre o gênio que só existe e o eterno.
Aguardamos surgir dos mares aquilo que secará os varais e a cachaçaria
abrirá as cortinas do espetáculo, eliminando o subalterno
num caminho de aplausos, confetes e um terno.
Esse ritmo de trêmulas mãos e pés firmes
oculto no grito e no semblante
que tenta saltar e remar aos olhos antes que o sal d'água o afogue
na luz da rua, santa e minguante
uma inquisição de paus-de-araras jorrando sede.
Escondeste-se nos salmos, mas na luminária e na parede
está a razão que exalto-te. Sem compaixão.
encaminhado entre os grandes, sem acalanto nem guarida
toma esse porre de seriedade que te preparo sem semancol
e brinca, criança na praça. Balança na subjetividade.
Jorge é um domingo sem futebol.



segunda-feira, 20 de março de 2017

Cozinha não Tradicional Brasileira - Crônicas da Moradia

Olá meus caros leitores, venho mais uma vez dividir com vocês, apreciadores de “boas” histórias, mais um causo da morada dos anjos. Este relato trata-se de criações culinárias que marcaram os nobres moradores (agora fantasmas), não usarei este texto para falar sobre as aberrações produzidas no salão de delícias, e nem sobre as maldições que assombravam a segunda-feira (Leia nas publicações anteriores), e sim para contar sobre grandes criações gastronômicas que ao longo do processo geraram dúvidas, todos perguntavam se realmente daria certo, se daria para engolir, e o medo de que a comida causasse indigestão pela sua produção no mínimo duvidosa. Relatarei as 3 receitas que presenciei.

Receita 1: Wolf cake

Uma tarde na morada dos anjos como qualquer outra, ouvi um barulho na cozinha, ao averiguar encontrei o grande Lobão com uma panela e aquele olhar de quem estava aprontando. Cheguei já perguntando: - O que está fazendo ai demônio? O lobo respondeu: - auuuuuuu, auuuuuu! Tornei a pergunta: - Fala demônio! O que ta enfiando nessa tigela ai? O lobo então respondeu que fazia um bolo. Acompanhei o processo completamente descrente que algo sairia daquela bagunça, o velho lobo jogava de tudo dentro daquela travessa e ria! Nenhuma medida ou padrão, nenhuma receita, ele só dizia: - Minha vó fazia assim muhahahah. Todas as vezes que me refiro a esse dia uso como referência um episódio do Mr. Been em que ele joga todos os ingredientes dentro de um chapéu e o bolo sai perfeito. Exatamente meus caros leitores, o Wolf cake ficou perfeito, macio e saboroso!  O fato chamou a atenção de todos pelo estilo de cozinhar do velho lobo, um estilo que com certeza não é seguro.

Receita 2: Pão Bolo

A fome chegará naquela tarde, Sir Tiago e eu estávamos atirados no sofá e então veio a idéia, um pão. Já havíamos feio pão antes, logo seria uma tarefa fácil. Então pegamos todos os ingredientes e fomos para a produção, quando de repente notamos um problema. Exageramos na quantidade de água, logo a massa não deu “liga”, ficou mole de mais e assim seria impossível fazer o pão. Tiagão já havia potencializado a criação com bacon e calabresa e nesse momento deu a ideia: - vamos colocar fubá! E assim nosso ingrediente inesperado número 1 foi adicionado à criação. Continuamos o processo, porém sem sucesso na consistência da massa, então olhamos a grande dispensa da morada dos anjos. Lá continha um sal grosso que estava há alguns anos ali, alguns temperos os quais alguns moradores não pensavam em jogar na panela e meio kg de polvilho o que salvaria a criação. Sir Tiagão olhou a validade do polvilho e logo alertou sobre seu vencimento que aconteceu há meses antes daquele dia, eu olhei para o Tiago e dei sinal verde para que o polvilho fosse anexado ao que ainda chamávamos de pão. Mesmo com os aditivos a massa ainda assim não teve consistência para que fizéssemos um pão tradicional, então, depositamos a mistura na forma como se fosse um bolo. Por incrível que pareça o pão bolo como foi chamado deu certo e não matou ninguém, tal delicia nunca mais pode ser repetida por falta do ingrediente principal que é o polvilho alguns meses vencido.

Receita 3 – Pão/Bolo/Orelha de Padre   

Essa foi a mais recente das criações culinárias de nossos chefes da amada Moradia estudantil, começou com o treinamento de Sir Luizinho com sua mestra das culinárias que ele amavelmente chama de mãe, ele praticou a receita tradicional de pão de sua família, mas, na moradia nada é tradicional nem mesmo a nossa família, logo a receita teria o toque criativo de nossos guerreiros. Pois bem, Luiz foi para as compras e na sua lista estava o fermento que seria usado para a terceira criação mais popular dessa casa e para que não houvesse erro levou junto a ele um especialista o senhor Harry Potter, que mesmo com sua grande capacidade culinária não pode prever o que aconteceria. Pois bem, cheguei à casa e me deparei com sir Luiz preocupado pelo não crescimento do bolo, e explicou várias vezes que seguiu a receita a risca, então pensamos que o fermento estaria estragado, porém antes de conferir tentamos todas os conhecimentos empíricos de mães que carregávamos conosco! Foi cobertor, horas no sol, bolinha da massa no copo, mas a massa não reagia. Então depois de muita “mandinga” resolvemos ver a validade do fermento. Quando Luiz me entregou o utensílio que comportava o fermento eu já percebi o que acontecia, Sir Luiz e Sir Harry compraram fermento de bolo e não de pão, um pequeno equivoco entre um fermento químico e um biológico! Mas calma meus caros leitores, isto não é o fim, na verdade essa é a possibilidade de nossos cozinheiros criarem as suas próprias receitas, e então começou a fabricação em maça da orelha de padre, o que era para ser um pão se tornou delicias fritas as quais sua produção ficou registrada em fotos. Em breve espero ter noticias de novas criações, tenho certeza que os discípulos tem muito a acrescentar a cozinha não tradicional brasileira.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Espectros

Agora somos espectros,
após tantas batalhas, 
a vitória foi alcançada.

Agora somos espectros,
imagens do passado que viraram lenda,
nomes que serão pelo menos no ano vindouro lembrados.

Agora somos espectros,
não nos preocupamos com notas ou professores,
somente com entrevistas e empregos meia boca.

Porém todo espectro deve ao menos uma vez por ano retornar a morada,
retornar a morada e tomar forma, conhecer os próximos candidatos a espectros,
fazer com que esses conheçam as maiores aventuras da morada dos anjos.

Dito isso complemento dizendo 
"Jorge não chore, ninguém morreu, qualquer dia a gente volta".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Jumper - CRÔNICAS DA MORADIA

Esse pequeno conto relata as acrobacias do senhor Tiagão e sua habilidade de pular janelas. Tiago tem suas pernas compridas e dedicava à vida na época a capoeira que lhe dava elasticidade para realizar feitos admiráveis. O menino diariamente pulava as grandes janelas da morada como se não houvesse amanhã e nem portas, pois bem, não é exatamente sobre os poderes do senhor Tiagão essa crônica e sim do seu aprendiz que resolveu TENTAR seguir os seu passos. O jovem Harry já dividia o quarto com sensey Tiago a um tempo, e admirava seus incríveis feitos, desde academicamente, sua posição política e agora o seu dom de pular janelas. O que vou relatar não sei dizer ao certo se ouve treinamento adiantado e adequado para o pequeno aprendiz, mas sem dúvida algo chamou a atenção de todos os moradores presentes no acontecido. Um dia todos estavam reunidos na cozinha da antiga morada aonde aconteciam o preparo e a degustação de todas as delícias entre outras criações que saiam dos "mestres" de cozinha. O senhor Tiagão exibia suas habilidades pulando de cá para lá a todo o momento, como todos já estavam acostumados com suas peripécias ninguém se demonstrava surpreso com os saltos, entretanto, algo estava prestes a acontecer e isso sim surpreenderia a todos que o virá. É meus nobres leitores, chegará a hora de Potter provar que já estava apto ao próximo nível, o momento de trocar de faixa, passar de fase, provar seu valor. Sem que qualquer um percebesse a sua intenção sai o pequeno Harry correndo e percorrendo a cozinha inteira, no momento todos ficaram em choque e observando para ver o que estava acontecendo, Potter se direciona a janela, e os moradores permanecem estáticos no local, sua chegada a janela é magnífica impressionando a todos, eis que harry da o seu salto grudando suas mão na parte superior da janela confiante no resultado. Por fim algo da errado, os cálculos pensado pelo jovem aprendiz não lhe dá resultados satisfatórios, suas pernas batem com a parede impedindo o término da acrobacias, e fica o pequeno poder com suas duas mão segurando a janela e seus pés apoiados na parede, o jovem não cai somente fica encurtado como um bicho preguiça em uma árvore, e nesse momento nenhum mal humor consegue derrubar os risos, foram de 15 a 30 minutos de risadas incontroláveis, alguns rolavam no chão de emoção e até mesmo harry não consegue segurar a graça que foi sua tentativa de salto. Por fim, foi engraçado para caramba, nenhuma crônica vai conseguir expressar o quanto ri naquele dia, e a imagem do Harry pota pendurado vai ficar para sempre na minha memória.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As algemas do passado

Certos dias, gostaríamos de telefonar pra nós mesmos, e passar horas conversando com quem você era mais ou menos a uns dois anos atrás. A visão do futuro deve ser privilegiada. Se é, nós descobriríamos nesse longo dialogo. Mas eu costumo gostar de como a vida se desenha, e como suas decisões e atitudes agora influenciam tanto no amanhã. Fizemos história, quem vai negar? Nós estivemos juntos, de mãos dadas, porém mudamos. Mudamos muito. Tanto você, eu do passado, quanto você, eu do presente. Mas se o eu do presente fosse me telefonar hoje, pra um dia qualquer lá de trás ele diria:
"é muito mais fácil não sentir, é muito mais fácil quando não se sente, é mais simples quando observamos de fora. O entendimento virá com o sentimento, e acompanhado dele, a dor. Suas mãos estarão com algemas, que só vão soltar-se quando alguém trouxer-lhe a chave. Você cresceu para não ter ela. Você sabe os caminhos, sabe onde pisa, planeja os passos. Mas a chave nunca será sua, é seu destino! Está escrito, esse é seu martírio. Você vai sentir na pele, daqui em diante como não é fácil ser o dono da chave, ainda que tenham te entregado várias delas, nenhuma abrirá a as algemas que te prendem. É mais fácil quando você não sabe disso, é mais fácil quando não tem essa consciência, e por falta dela, naturalmente não sente."
O meu passado, mais filosófico que o meu presente, matutaria a mensagem por vários dias, entenderia talvez o meu papel de telefonar e dizer. Mas não entenderia, jamais, que essa chave seria a que me libertou um dia pra vida, e a que me prendeu em martírio como uma cobra arisca, domesticada, que já não se vira na selva conhecida como viver. É a falta de sentido. Num mundo que não é sentido. E claro: o mundo tem seus sérios problemas, e a falta de sentimento não é um deles. É a solução, na verdade. Eu jamais diria para mim mesmo, "não sinta!" ainda que eu saiba que não sentir seria a solução. Estar algemado ou não, ter ou não, querer e não, não faz a menor diferença, você não sente, não sorri, não chora. Seria mais simples. Tenho agora, de responder meu futuro, antes que a ligação se encerre:
"Nós dois já conversamos muito. Eu vou pisar, subir, descer. Vou errar, é meu direito. Já estou errando em pensar em errar, porém, também já sinto pena de mim. Alguns erros nós dois vamos carregar juntos, para a nossa própria cerimônia fúnebre. Eles não terão perdão. A vida vai seguir. Nós vamos amargurar, engolir, cuspir. Eu posso evitar, mas como vou saber? Como não pisar? Os erros estarão ao meu lado, junto deles a dor. No fim, nós vamos sorrir, enganar quem for, cantar a vida. São nesses momentos que ela deve valer a pena -com ou sem algema-. Desligarei, mas antes devo dizer que tenho muito a aprender, e peço só que eu tenha disposição, se é o que me falta, que o céu me dê disposição de aprender a aprender."
E desligou, e o eu do presente ficou acoitado e enganado. Assustado. Não sabe ele que quem respondeu sua pergunta não era o passado, de jeito nenhum: era o futuro.