quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cronicas da Moradia - Vozes que nunca se calam



A moradia estudantil sempre foi um lugar ligado a vozes: vozes de estudos, vozes de minorias, vozes de luta e vozes de madrugada. Essas ultimas são o foco deste relato. Nos momentos em que estive presente, quase todas as noites de semana de provas traziam um certo que de fantasmagórico dentro dos quartos daquela morada. Os personagens que ali moravam relatavam diversas conversas durante o meio da noite, destas algumas presenciadas por quem escreve esse texto, e ainda sem compreensão por parte dele.
Certa noite enquanto acordava depois de um sonho desconexo, fico olhando para o teto esperando o sono voltar, quando:
- A policia! - O companheiro de quarto Rodrigão solta uma dessa em plena madrugada, o mesmo acorda com seu tom alto de voz e começa a rir com sua risada/marca registrada.
Todos do quarto riram, sabiam o que causara o medo na voz do rapaz, e não era a policia que o seguiu em sonho.
Em outra semana de prova, para desestressar, os moradores resolvem improvisar uma partida de RPG. Ainda leigo nessa arte, graças aos improvisos do mestre Luiz eles conseguem partir para uma boa aventura. Só que o que eles não sabiam era que o jovem mestre possuía uma história não tão divertida assim, em algum momento daquela noite ele narra um cenário não muito acolhedor:
- Havia sangue, muito sangue – não era necessário tentar decifrar o que veio em seguida, pois o lugar narrado pela voz do mestre não parecia ser o de uma aventura, mas o de um campo após uma guerra, que provavelmente teria sido travada após uma semana tensa.
 Já em outra morada, muito tempo depois dessa primeira, meus companheiros de quarto mudam, mas a semana de prova não, estava eu olhando para a beliche de cima a minha, ouvindo os roncos do companheiro que a dividia comigo, quando escuto palavras ofensivas proferidas ao meu lado:
- Seu babaca – a palavra foi seguida de murmúrios que não eram possíveis reconhecer, dada a forma que o jovem Luiz murmurava, provavelmente o cara que mexeu com ele no sonho não teve a melhor.
Porem na ultima semana de prova minha, neste mesmo quarto, presenciei a voz mais nítida que já havia visto ate então, O jovem João seus muitos sonhos noturnos, solta uma perola em que qualquer fã de culinária ficaria desesperado.
- A Ana Maria morreu! – o silencio que foi quebrado com tais palavras voltou no mesmo instante. A duvida pairava sobre a cabeça, quem seria tal mulher ao qual meu amigo ficou tão chocado a ponto de falar dormindo sobre sua morte?
Esses foram os que eu consegui lembrar, existem muitos outros, relatos de pessoas correndo em suas camas ate se sentando nelas no meio da noite sem fazer nada. Porem as vozes, ah, as vozes, elas nunca se calam.

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