Levantei às cinco da manhã. Uma das raras vezes que acordei cedo ao longo do meu tedioso dever noturno de estudar dentro de três anos. De madrugada a vida sempre é mais amena, menos turbulenta. Temos uma vida fria, escura e o pior é que gostamos. Levantei e fiz um cafezinho pra ilustrar o clima gostoso que fazia na quase manhã de segunda. Umas azeitonas para manter minha pressão enquanto fumo um cigarro, café na mesa, jornal na mão, tempo fresco. Uma hora passou tão rápido que eu nem me liguei. Fui até a janela, o sol foi aos poucos abrindo seu sorriso. A paz interior é um assunto absurdo. As coisas se tornam maravilhosas por motivos obviamente pessoais.
Meu vizinho, por volta das 6:10 gritou com o seu menino para que ele acordasse. Incrível. Que beleza existe no cotidiano mais simples. A rotina tem suas vantagens mundanas. O tempo pode ser arquivado na memória através da rotina. Deixei o sol brilhar sem mais administração entrei e liguei para meu patrão: "hoje eu não vou. Quem sabe amanhã também não. Eu sou dono do meu tempo." Claro, eu sabia que isso acarretaria minha carta de demissão mas eu já nem ligava. A minha vida estava dolorida demais para suportar a dor do trabalho forçado. Eu sou dono do meu tempo sim. O sol em sua rotina é pontual. Isso faz com que Tupã não seja dono do seu tempo. O tempo do sol agora pertence a todos nós. Ah, me poupe: o meu tempo não pode pertencer ao meu patrão.
Seria exagero dizer que acordei sem medo. O sereno nos assusta, a escuridão nos causa estranheza. Mas não naquela manhã. O cotidiano solar se fez presente para todos. Eu não sou um sol pra ninguém. Não vendo minha tediosa rotina por momentos sem fazer nada onde o fazer nada me satisfaz. Mas admito que seria uma rotina tediosa fazer todos os dias o que fiz hoje. E é claro: nem sempre terei um emprego para eu me demitir dele.
Os moralistas vão dizer sobre a taxa de desemprego. Minha paz interior é tão grande que não daria ouvidos ao senhor. Estou tão bem que se aparecer em minha frente o presidente interino golpista eu o chamaria para tomar um suco e conhecer o Billy. Inclusive o eleito vice presidente adora cães. Boatos que ele mantinha um canil ilegal dentro de sua própria casa. Mas isso é outro assunto que não faz parte da rotina das pessoas. Tupã, que quase caiu no esquecimento ainda assim está presente e sempre fazendo questão de se apresentar aos corações piedosos. Hoje ele me visitou. Inflou meus pulmões com um ar puro, aguçou meus ouvidos para o vento, as folhas, o vizinho. Tupã me deixou contente com seu dia a dia. Gostaria de pedir intermédio de seu espírito elevado que isso ocorra com mais frequência comigo. Ah, e também peço para que sua entidade passe visitando os motoristas, pela sua paz. O trânsito está terrível (o trânsito ganha vida nessa crônica pelo fato que ela me pertence) e não consegue deixar em paz um ser humano. Talvez Tupã não faça isso... É, não fará. Muita loucura pra sua mente selvagem. Se até pra ele, estamos fritos. Encerro dizendo-lhes que a criança voltou da escola agora a pouco e seu pai não estava em casa. - Encontra-se no jornal que eu li pela manhã. -
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